Mobilidade urbana: o que é, para que serve e principais problemas no Brasil

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Imagina passar um mês inteiro parado em algum congestionamento? Terrível só de pensar, não é mesmo? Mas o pior é que muito provavelmente você passa por isso. Sim, é verdade. Estima-se que os moradores das grandes cidades passem ao menos um dos doze meses do ano presos em engarrafamentos.

Seja dentro do carro ou do ônibus, a maior parte da população brasileira sofre diariamente com a falta de planejamento urbano das cidades. Uma enorme perca de tempo e qualidade de vida.

No post de hoje vamos traçar um panorama completo sobre a questão da mobilidade urbana, sua importância, principais problemas, desafios e soluções apontadas por especialistas na área. Embarque nessa com a gente, prometemos que, ao menos dessa vez, não haverá congestionamento no caminho:

Mobilidade urbana – o que é e para que serve

Mobilidade urbana: ilustração

A mobilidade urbana pode ser definida como um conjunto de diretrizes destinadas a garantir e facilitar o deslocamento de pessoas e cargas dentro das cidades. No Brasil, a mobilidade urbana é um direito garantido pela constituição.

Desde 2012, a Politica Nacional de Mobilidade Urbana criada pela lei nº 12.587/2012 determina que as cidades com mais de 20 mil habitantes devem formular um plano de mobilidade com o objetivo de melhorar o deslocamento das pessoas, garantir a integração entre os diferentes tipos de transporte e estabelecer um preço acessível e justo pelos mesmos. No entanto, apenas 8,5% das prefeituras dos municípios brasileiros entregaram o plano, o que acabou forçando o governo federal a estender o prazo até o final de 2018.

Na teoria, uma mobilidade urbana eficiente torna a inda e vinda do cidadão mais rápida, prática e fluida. Não existiriam congestionamentos, o transporte público funcionaria com qualidade e preço justo e você teria diversas opções de locomoção à sua disposição. Contudo, todo brasileiro sabe que não é isso que acontece por aqui.

Cabe as prefeituras municipais a responsabilidade pela mobilidade urbana. O poder público municipal tem, entre outras obrigações, oferecer transporte público, realizar investimentos para construção de vias, viadutos, calçadas, ciclovias e elaborar e executar a politica de mobilidade urbana municipal, conforme a lei exige.

E a cada cidadão está incumbido o dever de observar e reivindicar o que está sendo feito em sua cidade e cobrar das autoridades locais alternativas e soluções para melhorar a mobilidade urbana.

Dados da mobilidade urbana no Brasil

No Brasil há um carro para cada quatro habitantes, ou seja, atualmente o país possui uma frota de veículos particulares que bate a casa dos 54 milhões, se somarmos a esse número ônibus, motos, caminhonetes e outros veículos motorizados o total geral chega a quase 98 milhões de veículos.

Esse número extraordinariamente alto nos leva a ocupar sete lugares na lista das cidades mais congestionadas do mundo, de um total de 165 cidades. Segundo o site Numbeo, especializado na comparação de dados entre metrópoles, a capital de Pernambuco é a cidade onde se perde mais tempo no trânsito, seguido pelas cidades do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo, que surpreendentemente ocupa a quarta posição entre as brasileiras – logo depois vem Porto Alegre, Curitiba e Brasília. Ficamos na frente apenas de países como Índia e Bangladesh, internacionalmente reconhecidas pelo trânsito caótico.

A maior frota automotiva do Brasil está concentrada em São Paulo, o estado abriga cerca de 18 milhões de todos os veículos particulares do país. Em seguida vem Minas Gerais. Os mineiros possuem uma frota de quase 6 milhões de carros, os estados do Rio de Janeiro e Espirito Santo possuem a menor frota da região com 4,5 milhões e 900 mil, respectivamente.

A região sul aparece com a segunda maior frota de automóveis do país com cerca de 12 milhões. Já a região Nordeste, apesar de populosa, concentra ao todo apenas 6,6 milhões, um terço do total da frota do estado de São Paulo.

A região Norte é que possui o menor número de veículos particulares. Estima-se uma frota total de 1,7 milhão.

Contudo, não é difícil entender o porquê desses números. O Brasil durante muitas décadas enxergava apenas o transporte rodoviário como solução para a mobilidade urbana, incentivado inclusive pela vinda de empresas automobilísticas para cá.

No entanto com o crescimento populacional e a demanda por locomoção cada vez maior não demorou muito para esse sistema cair em colapso. O que vemos hoje em dia é a persistência em uma politica de mobilidade retrograda que insiste em construir vias e abrir estradas ao invés de apostar em sistemas alternativos de transporte, especialmente o ferroviário e o pluvial, dada as dimensões continentais do país e a extensa faixa litorânea que o percorre, sem contar na grande quantidade de rios e afluentes que cortam cidades e estados.

Algumas tentativas de melhorar a condição de mobilidade nas cidades já foram propostas, como é o caso do Rio de Janeiro, que viu surgir no período da Copa do Mundo e das Olimpíadas grandes investimentos a fim de melhorar a condição do tráfego urbano. Uma das soluções foi apostar nos metros de superfície ou BRT, do inglês Bus Rapid Transit.

A cidade de Curitiba, entretanto, é quem foi a pioneira nesse tipo de transporte. O BRT é uma realidade na capital paranaense e já serviu de inspiração para muitos países do mundo.

Problemas e desafios da mobilidade urbana

Trânsito em São Paulo

Enxergar os problemas da mobilidade urbana no Brasil não é difícil. Eles saltam aos olhos de todos: motoristas, pedestres e ciclistas. Há muito que fazer e repensar. E talvez seja esse o grande problema da mobilidade urbana no Brasil: continuar explorando um modelo que já está obsoleto. Apostar em novas alternativas e criar politicas públicas que realmente estejam dispostas a resolver a questão é o que fará a diferença.

O cidadão precisa sentir-se seguro e confiante para deixar seu carro em casa e seguir até o trabalho – ou outro lugar que seja – utilizando transporte público como ônibus, metro ou trem. Ou quem sabe ainda partir para o uso de meios alternativos como a bicicleta.

Mas é muito difícil que o cidadão abra mão do conforto do próprio carro para ficar a mercê de transportes sucateados, que atrasam muito mais do que deveriam, são super lotados e que ainda cobram uma pequena fortuna por tudo isso.

Em 2013, inclusive, o Brasil viveu um de seus maiores movimentos populares desencadeado pelo aumento da tarifa do transporte público. Ou seja, não dá para negar que o país sofre uma série crise no sistema de mobilidade urbana.

O uso de aplicativos de transporte, como Uber, por exemplo, tem colaborado para o aumento do trânsito nas cidades, já que eles disputam passageiros com o transporte público, só que com um agravante: enquanto um ônibus carrega até 60 pessoas, um carro de aplicativo leva no máximo quatro.

Outro grande problema da falta de planejamento urbano e, por conseguinte, da mobilidade, é o desgaste ambiental. Cada carro a mais circulando nas ruas aumenta a poluição do ar e piora a qualidade de vida das pessoas.

Diante de tantos problemas, onde fica a solução? Parece fácil ao olhar, mas a questão da mobilidade urbana brasileira passa por uma série de desafios que vão muito além da mobilidade em si.

Os governantes que estiverem dispostos a encarar a briga terão que enfrentar o lobby das montadoras de veículos, a especulação das empresas que detêm os direitos sobre os transportes públicos e a corrupção que impossibilita a concretização das propostas elaboradas.

Uma mobilidade urbana de qualidade passa, sobretudo, pela valorização do transporte público. Tarifas justas, transporte com conforto e qualidade, aumento da frota para evitar atrasos e a integração como meio de facilitar o deslocamento.

Há ainda que se pensar na educação e conscientização dos indivíduos para a questão da mobilidade e o incentivo autêntico e comprometido com o uso de transportes alternativos, como a bicicleta, investindo principalmente na criação de ciclofaixas.

Mobilidade urbana que funciona: exemplos que vem de fora

Bicicletas na holanda

O que é bom deve ser copiado. O velho ditado não poderia ser melhor aplicado do que na questão da mobilidade urbana. Tem muito país por aí dando aula de como fazer um trânsito melhor e nós, daqui do nosso território verde e amarelo, podemos e devemos nos inspirar nessas práticas.

São países de primeiro mundo que vivem uma realidade distante da nossa? Sim, pode ser, mas melhor se inspirar no que está dando certo e aplicar na medida do possível do que continuar apostando no que já se mostrou ineficaz.

Podemos começar citando a Holanda. O país europeu possui o melhor sistema de mobilidade urbana do mundo, reconhecido internacionalmente. Lá, o comum são pessoas se locomovendo de bicicleta para todos os lugares. O numero de bicicletas em Amsterdã supera o número de habitantes, para você ter uma ideia.  O ciclista é respeitado e tem prioridade frente a carros e ônibus. Outra característica positiva do sistema de mobilidade holandês é a facilidade de integração entre os transportes. E por falar em diferentes meios de transporte, o país investe ainda em trens, metros, bondes elétricos e barcos (que também comportam ciclistas).

Dinamarca e Alemanha também se destacam pelo uso da bicicleta. Atualmente mais da metade da população dos dois países faz seus percursos sobre duas rodas. Em Berlim, o destaque é para o incentivo aos carros elétricos. Já são mais de oito mil veículos desse tipo pela cidade e cerca de 500 estações de cargas espalhadas pelas ruas.

Em Zurique, na Suíca, o transporte público é o preferido da população. Ônibus e bondes sobre trilhos cortam toda a cidade e o morador não passa mais de 300 metros sem avistar um ponto. Atualmente, a cidade está focada em substituir os ônibus a diesel por modelos elétricos. A expansão das ciclovias também está nos planos de mobilidade local.

Mas o título de cidade pioneira em mobilidade vai para a Londres. A capital da Inglaterra foi a primeira a implementar o primeiro túnel submarino, o primeiro aeroporto internacional e a primeira rede ferroviária subterrânea do mundo. O sistema de transporte de Londres é marcado pela integração entre ônibus, trens e bicicleta. Em 2010, a cidade lançou o serviço de aluguel de bicicletas para estimular o uso do transporte no centro.

Mobilidade urbana no futuro e a sustentabilidade

Conceito de cidade vista do topo Hong Kong

Ao olhar os exemplos que vem de fora fica fácil determinar o futuro da mobilidade urbana: transporte público de qualidade e bicicleta. A união desses dois modelos de transporte é a luz no fim do túnel para quem acredita que o caos das cidades brasileiras não terá fim.

A mobilidade urbana no futuro estará mais ligada à sustentabilidade do que nunca, especialmente com o uso de transportes elétricos e de outras fontes renováveis. A bicicleta, outra grande aposta sustentável, será o transporte mais utilizado nas metrópoles, sem contar que a opção ainda é um ganho para a saúde e para qualidade de vida.

Os carros elétricos são outra tendência que deve bater à nossa porta em breve. Com o estimulo à produção e o incentivo à compra não demorará muito para eles serem vistos com mais frequência.

Se o Brasil fizer a lição de casa, assim como outros países já fizeram, em breve poderemos contemplar cidades verdadeiramente sustentáveis, organizadas, tecnológicas e, acima de tudo, prazerosas de viver.